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Vazamento de 91 mil documentos
Aberta a caixa preta da guerra do Afeganistão
Mais de 90 mil documentos foram divulgados denunciando em detalhes os horrores da guerra imperialista contra o Afeganistão. São documentos confidenciais que exibem um verdadeiro raio-x da guerra

Na última semana, uma bomba caiu sobre o governo Obama. Foram publicados, em uma página da internet feita por jornalistas de vários países, nada menos que 91 mil documentos secretos do exército norte-americano que expõem a investida imperialista no Afeganistão.

Os documentos são referentes ao período de janeiro de 2004 a dezembro de 2009 e apresentam um relatório completo das atividades das Forças Armadas norte-americanas no País.

Aparecem nos documentos, entre outos, acusações de envolvimento do serviço de inteligência do Paquistão com o grupo Talibã no Afeganistão. Três órgãos da imprensa burguesa, o The New York Times, o britânico The Guardian e a revista alemã Der Spiegel receberam o relatório da Wikileaks, para aumentar a divulgação desses documentos.

O vazamento deste dossiê sobre a guerra do Afeganistão foi publicado no portal de denúncias WikiLeaks que é formado por um grupo de jornalistas. Este portal é uma espécie de imprensa dos “censurados” que recebe artigos de jornalistas que receberam censura e não possuem local para publicá-lo. Foi o WikiLeaks que divulgou em abril deste ano o vídeo de uma operação militar no Iraque em 2007, que mostrava um helicóptero Apache do exército norte-americano assassinando 12 pessoas, entre elas civis iraquianos e dois jornalistas da agência de notícias Reuters. À época Causa Operária publicou diversas matérias sobre este acontecimento. Segundo o portal, existem mais de 91 mil documentos confidenciais sobre crimes de guerra cometidos durante os anos de 2004 a 2010, ou seja, quase todo o período da guerra.

Segundo o dono do portal, Julian Assange, as informações contidas nestes documentos revelam que o que foi divulgado até agora sobre a guerra é apenas um “arranhão na superfície” da invasão imperialista.

Este é, sem dúvida, o maior vazamento de documentos secretos da história dos EUA. As informações têm origem em relatórios de inteligência, registros internos etc.

Diário de guerra 

Os mais de 91 mil documentos contém informações detalhadas sobre todos os procedimentos militares das tropas norte-americanas no Afeganistão e também no Paquistão nos últimos seis anos.

É uma espécie de diário de guerra, um relatório completo que expõe operações militares nos mínimos detalhes, citando localização, nomes de oficiais do exército envolvidos nas atividades e até mesmo o armamento utilizado.

Os documentos também citam o número de mortos em cada uma das operações dividindo por categorias; civis afegãos, insurgentes, aliados afegãos (policiais, soldados) ou de soldados de outras nacionalidades e de soldados norte-americanos.

Chacina em detalhes

Estes documentos revelaram o que as pesquisas “oficiais” sobre o número de mortos jamais mostraram. De acordo como os jornalistas editores do WikiLeaks “os arquivos revelam as localizações e os eventos-chave detrás da maioria destas mortes. Esperamos que sua divulgação leve a uma compreensão abrangente da guerra no Afeganistão e forneça o material bruto para mudar o seu rumo”.

Os documentos são relatórios de soldados que foram para a situação de combate ou outro tipo de “missão”. Nestes relatórios aparecem descrições minuciosas destas operações.

Os documentos também destacam informações sobre a existência de um destacamento militar especial criado para capturar ou matar insurgentes sem direito a julgamento. Os relatórios divulgados pelo mesmo mostram ainda que desde o início do conflito armado em 2001 centenas de mortes de civis não foram relatadas.

Para o Assange, "acredito que este material causa mais dano e é mais crítico para os EUA. Ele mostra desde a morte de um menino a grandes operações que matam centenas de pessoas" (El País, 29/7/2010).

O secretário de Defesa dos Estados Unidos, Robert Gates, tentou reverter a situação, abusando do cinismo e culpando o portal como o responsável por revelar segredos aos “inimigos” no Afeganistão, “Na esteira desse incidente, será um desafio real conseguir o equilíbrio perfeito entre garantir a segurança e fornecer as informações necessárias às nossas tropas na linha de frente. Fontes de inteligência e métodos, assim como táticas militares, técnicas e procedimentos serão conhecidas por nossos adversários” (BBC, 29/7/20100).

Mike Mullen, Chefe Maior das Forças Armadas, aproveitou os ataques de Gates para responsabilizar Assange por futuras mortes de “inocentes” no Afeganistão devido à divulgação dos documentos, “O senhor Assange pode dizer o que quiser sobre o bem maior que ele e sua fonte pensam estar fazendo, mas a verdade é que eles talvez já tenham em suas mãos o sangue de alguns jovens soldados e de uma família afegã” (Idem). É a desculpa mais fajuta apresentada para justificar a guerra do Afeganistão, como se o fato [o roubo] fosse um mal menor em relação ao conteúdo dos relatórios.

Crise interna

O governo norte-americano está tentando amenizar a crise procurando um inocente útil para incriminar. Na semana passada, um jovem de 22 anos, chamado Bradley Manning, foi acusado pelo Departamento de Defesa norte-americano como o responsável pelo vazamento dos 91 mil documentos. É óbvio que esta é uma manipulação descarada para desviar a atenção para a crise no interior do governo Obama com a divulgação dos documentos.

A revelação destes documentos expõe a um nível nunca antes imaginado em nenhuma outra guerra a debilidade do governo norte-americano. São documentos confidenciais e de uma profundidade nunca antes vista em nenhum dos outros conflitos armados de grande escala do imperialismo norte-americano. Há um caso semelhante, mas não tão profundo, sobre o vazamento de documentos que ocorreu no final da Guerra do Vietnã. Em 1971, o jornal The New York Times divulgou documentos do Pentágono a respeito da guerra. Logo após este vazamento de informações, a crise do governo Nixon com a guerra se aprofundou, resultando no caso Watergate e depois em seu impeachment.

Segundo o portal WikiLeaks, entre as fontes que disponibilizaram os documentos estão membros da alta cúpula do Pentágono e também membros do governo norte-americano que estão sendo preservadas. Ainda de acordo com o portal WikiLeaks, cerca de 15 mil documentos, além dos 91 mil publicados, não foram disponibilizados na internet. Segundo os editores, estes documentos podem comprometer determinadas pessoas e serão publicados aos poucos.

A divulgação destes documentos e a origem das fontes são um retrato de como há uma imensa crise dentro do governo norte-americano.

Desde a demissão do general Stanley McChrystal que era o responsável número um pelas tropas dos Estados Unidos no Afeganistão, já havia sinais da intenção de parte do exército de colocar Obama na “fogueira” para este sair como o culpado pela invasão.

Tudo leva a crer que o imperialismo norte-americano está planejando uma jogada para isolar Obama e ao mesmo tempo jogar a culpa de toda a invasão nas mãos dele depois de ter usado a sua imagem como alternativa à política de Bush.

Correios: aprofundando a privatização

Outro acontecimento importante desta semana foi a demissão do presidente dos Correios, Carlos Henrique Custódio e do diretor de Recursos Humanos, Pedro Magalhães Bifano.

O novo presidente da ECT (Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos) será David José de Matos que é filiado ao PMDB. Ele tem ligações diretas com o presidente do PMDB no Distrito Federal, o deputado Tadeu Filippelli que está concorrendo às eleições pelo cargo de vice-governador juntamente com Agnelo Queiroz do PT que está sendo apoiado pelo PCdoB.

Esta mudança ocorrida em meio às eleições presidenciais poderia ser interpretada como uma mudança na estrutura interna dos correios, mas na verdade é um aprofundamento da política de privatização da empresa que está sendo colocada em marcha pelo governo.

Ao contrário do que é apresentado pela imprensa burguesa, que diz que esta mudança seria relacionada a uma reestruturação interna por causa de problemas como falhas na entrega de encomendas, a troca da presidência dos Correios tem um caráter de manutenção da atual política e não de mudança.

Este sucateamento está sendo promovido conscientemente pela direção do governo por meio do Departamento de Controle das Estatais que recebe ordens do Ministério Planejamento que vem aplicando uma política de redução do quadro de funcionários concursados. Em contrapartida, a direção da empresa não contrata novos trabalhadores provocando o atraso na distribuição das correspondências e encomendas.

Os novos cargos foram ocupados por pessoas que estão integralmente envolvidas com o Governo Federal e a Medida Provisória que pretende privatizar a ECT transformando-a em uma S.A, Sociedade Anônima.

O governo Lula está redefinindo os cargos da direção dos Correios para aumentar a influência do PMDB e também, de forma secundária, do PT e do PCdoB para no primeiro momento utilizar a estatal como financiadora da campanha eleitoral dos políticos burgueses e em segundo plano para reorganizar a aplicação da privatização para o próximo ano. 

Os trabalhadores dos Correios devem rejeitar esta interferência do governo Lula e dos partidos burgueses na ECT e lutar contra a privatização por meio do controle da empresa pelos próprios trabalhadores. Os Correios devem ser uma empresa 100% pública, controlada pelos próprios trabalhadores.