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09 de julho de 2013 11:26 PM

Egito
Em direção à guerra civil
Novo massacre de 51 manifestantes pelo Exército expõe a verdadeira cara do golpe militar. A crise do regime se aprofunda a passos largos em direção ao aumento ainda maior da desestabilização do Oriente Médio

O mundo assistiu estarrecido ao massacre de mais de 50 manifestantes por tropas do Exército egípcio de manifestantes da Irmandade Muçulmana. Na segunda feira 8 de julho, milhares de pessoas se manifestavam, desde o domingo, em frente ao quartel da Guarda Republicana onde acreditavam encontrar-se o presidente deposto, Mohammed Morsi. Por volta das quatro da madrugada, na hora das preces, se voltaram em direção à mesquita de Rabaa al-Adawiya, enquanto os soldados jogaram bombas de gás e dispararam com munição letal. O saldo foi de 51 pessoas mortas, entre elas cinco crianças, uma de apenas seis meses de idade, centenas de feridos, que podem superar as 900, e 650 pessoas presas.

Esse ato revelou, de maneira muito clara, o verdadeiro caráter do golpe militar, que tem como objetivo controlar o País a ferro e fogo. A máscara da suposta tentativa de implementar um novo regime “democrático”, contra o autoritarismo islâmico do governo Morsi, caiu. Ao mesmo tempo, por meio de um decreto, o novo presidente interino, o juiz Adli Mansur, investiu o governo de poderes quase absolutos. O executivo poderá promulgar leis por meio de decretos, ditar a política orçamentária e decretar o estado de sítio. O Exército emitiu um comunicado de apoio ao decreto e uma advertência aos manifestantes. “O Exército é capaz de cumprir com as suas responsabilidades e estar à par dos perigos derivados do período que começa agora”.

 

Aprofunda-se a crise do regime

 

A crise política atingiu à Frente de Salvação Nacional, a união de 36 partidos de direita que encabeçou o golpe militar junto com o Exército, conforme apareceu a verdadeira fase truculenta do novo governo golpista. A direção do movimento Tamarrod (Rebelião), que serviu como fachada democratizante ao golpe, manifestou o repúdio ao decreto qualificando-o como ditatorial. Até alguns partidos da direita, como o Partido Libre Egípcio o qualificou como “muito decepcionante”.

O partido salafista Nur, a segunda força nas últimas eleições legislativas, com 25% dos votos, apoiou o golpe, mas rejeitou a manobra para impôr El Baradei, o prêmio Nobel da Paz, ligado intimamente ao imperialismo, como primeiro ministro. Depois do Nur ter se afastado dos golpistas, a direita o atraiu novamente escolhendo um “tecnocrata”, o ex-ministro das Finanças de 76 anos, Ziad Baha el Din, mas enfrenta crescente pressão das bases após o assassinato dos manifestantes.

Na tentativa de conter o direcionamento do País para uma guerra civil, o novo primeiro ministro anunciou que oferecerá postos no novo ministério ao Partido Liberdade e Justiça, braço político da Irmandade Muçulmana. Nos próximos seis meses, o governo prometeu convocar um referendo sobre emendas à Constituição e a eleições legislativas, e, posteriormente, a eleições presidenciais.

A direção da Irmandade Muçulmana rejeitou a integração ao processo golpista,  qualificou o decreto de Mansur como a culminação do golpe militar e chamou ao levantamento contra os golpistas. Numa declaração pública, o Partido Liberdade e Justiça disse que “medidas como esse decreto só podem mostrar a aqueles que em princípio apoiaram o golpe quais são as verdadeiras intenções dos chefes militares e os oficiais do regime de Mubarak que agora voltam a controlar o País.” “A chacina na qual foram assassinadas 51 pessoas deveria abrir o olhos a muita gente sobre o que está acontecendo no Egito.”

O imperialismo norte-americano se manifestou como “cautelosamente animado” e anunciou que manterá a ajuda militar por US$ 1,5 bilhões anuais. A Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos anunciaram empréstimos por U$ 8 bilhões que têm como objetivo cobrir uma parte do déficit de US$ 21 anuais.

A desestabilização do Egito continua a passos largos e deverá intensificar-se no próximo período devido ao aprofundamento da crise capitalista mundial. A crise no Oriente Médio continua crescendo. À Síria se soma o Egito, mas também cresce a crise na Jordânia e no Iraque, e deverá crescer na Faixa de Gaza, onde era contida pela Irmandade Muçulmana egípcia. No próximo período, o incêndio continuará aumentando em direção aos principais países da região, as reacionárias monarquias do Golfo Pérsico, que representam um dos principais pilares de sustentação do capitalismo mundial devido ao controle do petróleo.