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Estados Unidos
Quais são as consequências da seca que poderá ser a pior dos últimos 50 anos?
Análise dos impactos da seca sobre a produção e comercialização do milho e demais commodities, sobre o Brasil e o meio ambiente



Os EUA, que são o maior produtor de grãos do mundo, vêm sofrendo a pior seca dos últimos 50 anos, que já atingiu cerca de 61% do território. Segundo o USDA (Departamento de Agricultura Norte Americano), aproximadamente, 60% das plantações de milho estão passando de uma seca moderada para extrema. Cerca de 1.016 cidades em 26 estados estão sendo impactadas.

De acordo com uma matéria publicada recentemente no jornal Chicago Tribune, “a situação no estado de Iowa foi classificada como anormalmente seca, em 10 de julho, e 12,7% da produção do estado, um grande produtor de milho e de soja, estava em seca severa, subindo mais 0,8% sobre a semana anterior.

Mais difícil ainda é a situação de Illinois, o segundo maior estado na produção de milho e de soja, que estava com 66,28% da área plantada em seca severa ou pior, contra 40% na semana anterior.

Grave também é a excepcional seca que cobre 80,15% do estado de Indiana, contra 68,84% na semana anterior.

As condições em Missouri também se deterioraram, com 82,54% do estado em seca severa ou pior, em comparação com 78,83% na semana anterior”.

As fazendas mais produtivas estão localizadas no Centro-Oeste (região mais afetada pela seca), nove em cada 10 hectares de milho e soja estão sofrendo com a seca. O governo norte americano havia cortado o subsídio anual de US$ 5 bilhões que era concedido aos agricultores. A Farm Bill, legislação que define as políticas agrícolas do País junto com o governo decidiram prorroga-lo por mais um ano.

As consequências da seca atual já ultrapassaram às de 1988, que tinha provocado a perda de cerca de 37% da soja e 48% da safra de milho. O prejuízo relacionado ao milho está calculado em torno de US$ 25 bilhões. As lavouras de soja, que estão em fase de desenvolvimento já estão com um prejuízo de US$ 33 bilhões. Se a seca persistir durante o mês de agosto, poderá tornar-se a pior seca da história dos EUA e impactar em cheio também a produção de soja. O País será obrigado a importar milho e soja neste ano, o que deverá provocar a disparada dos preços das commodities agrícolas devido ao aumento da procura e à escalada da especulação nos mercados futuros que enfrenta esgotamento devido à queda da demanda por matérias primas minerais. Os EUA lideram as exportações de commodities agrícolas no mundo, e é responsável por cerca de 40% das commodities negociadas nos mercados futuros.

Qual é o impacto da seca em relação à produção e comercialização do milho?

O preço do milho atingiu US$ 8,00 por bushel (cerca de 25 Kg), ante os US$ 5,00 estimados nas bolsas futuras de mercadorias, e deverá subir ainda mais. A soja atingiu US$ 20,00.

O aumento do preço do milho deverá provocar o aumento de vários outros produtos que o usam como matéria prima, tais como etanol, ração para o gado, adesivos, alumínio, aspirina, xarope para tosse, tintas, penicilina, creme dental, cosméticos entre muitos outros. Levando em consideração que cerca de 75% dos produtos de mercearia utilizam o milho como ingrediente básico, a alta do preço dará um novo fôlego à especulação com matérias primas agrícolas, nos mercados futuros especulativos de commodities, mas, também, disparará as pressões inflacionárias, o que é um câncer para a estabilidade do sistema capitalista. Os altos preços dos alimentos e da energia estão na base das revoluções dos países árabes.

A manipulação dos estoques de grãos nos mercados mundiais, pelos especuladores financeiros, já pode ser sentida, o que também tem incentivado as compras de pânico por algum países devido ao temor à desestabilização social – a Arábia Saudita e a Argélia já promoveram medidas neste sentido.

Cerca de 50% das pastagens, destinadas à produção de gado nos EUA, estão em situação “podre” para a alimentação dos animais. Muitos criadores têm sido obrigados a vender o gado por falta de condições de sustenta-lo devido ao aumento dos preços da ração, elaborada basicamente com milho e soja. O Mercado de Ações de Torrington, no estado de Wyoming, por exemplo, registrou mais de 36.000 vendas de cabeças de gado, entre maio e junho deste ano, contra 5.000 registradas no ano passado. Os preços caíram de US$ 1.500, por animal, para US$ 900. O mesmo está acontecendo com os criadores de suínos, aves e outras carnes. O mercado de carne espera um sensível aumento dos preços no próximo trimestre.

O preço de outras commodities agrícolas também têm aumentado como efeito colateral. O preço do trigo aumentou mais de 50% desde meados de junho.

Impactos da seca nos EUA sobre o Brasil

A seca nos EUA favorecerá a produção de matérias primas agrícolas no Brasil e provocará o aumento dos preços da soja e do milho. Segundo os meteorologistas da Somar, a ocorrência do fenômeno El Niño, que está acontecendo, é favorável ao plantio e à colheita da soja no País, que poderá tornar-se o maior produtor em escala mundial neste ano.

Mas, em paralelo aos ganhos com as exportações das commodities agrícolas, vários outros problemas acontecerão.

O preço da soja está 30% mais alto desde o início de junho, e 60% acima dos níveis do final do ano passado. O milho já subiu 45% desde meados de junho. Estes níveis de preços têm concentrado a volatilidade especulativa do mercado de commodities e elevado as incertezas de abastecimento para os contratos futuros, o que, por sua vez, incentiva uma nova corrida pelos grãos e a escalada da especulação.

O aumento dos preços está se estendendo para o restante dos alimentos, dentre eles o da carne, principalmente de aves e suínos, que dependem em 80% do milho, fazendo com que os preços devam sofrer altas consideráveis nos próximos meses. O setor de produção de carnes no Brasil tem sofrido o impacto das quedas de exportação, principalmente para o mercado russo, devido à queda da demanda provocada pelo aprofundamento da crise capitalista mundial.

Os altos preços dos alimentos têm sido o fator fundamental das pressões inflacionárias no Brasil, que o governo do PT tenta minimizar com vários tipos de manipulações contábeis e estatísticas. Segundo o Banco Mundial, a cada aumento de 10% nos preços das commodities agrícolas, ao longo de um ano, acarreta um repasse de 0,8% no IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo), indicador usado para balizar a meta da inflação do governo, mas, obviamente, nos setores mais pobres da população o impacto será ainda maior.

Com o aumento da inflação, os alimentos passarão a custar mais caro e, a perda do poder de compra dos salários, fornecerá um terreno fértil para o crescimento do movimento grevista e dos protestos contra o governo e o regime burguês. Desde o colapso capitalista de 2007/2008, os alimentos básicos tiveram os preços aumentados em três vezes. No México, a crise especulativa sobre os alimentos, que aconteceu em 2007/2008, provocou a disparada do preço do milho, que é o alimento base (tortilha) dos mexicanos, e detonou enormes ondas de protestos populares.

Outro grave impacto da seca nos EUA sobre o Brasil relaciona-se com as crescentes importações de etanol combustível que é produzido a partir do milho, razão pela qual os preços deverão disparar. O parasitismo do setor sucroalcooleiro brasileiro, que está sob o controle das multinacionais imperialistas, e que é o principal tomador de recursos do BNDES, levou a que passasse de ser a potencial estrelinha da nova commodities, durante os governos Lula, para a situação atual, na qual nem sequer consegue atender à demanda nacional. Junta-se a isto, os deficientes investimentos da Petrobras na área de refino de combustíveis que a obriga a vender óleo cru e a importar os subprodutos refinados dos EUA.

O aumento das pressões do “agronegócio” para o governo do PT para liberar a depredação ambiental em escala ainda maior

Os latifundiários,setor mais reacionário da burguesia nacional, aliados às multinacionais imperialistas, sob o pomposo nome de “agronegócio”, aumentaram ainda mais a pressão para que seja aumentada a fronteira agrícola em cima da aprovação da maneira mais espoliadora possível do Novo Código Florestal. De maneira demagógica, a CNA (Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil) propagandeia que o Brasil deve tornar-se “celeiro do mundo” e aumentar a produtividade dos grãos no Brasil, que hoje está cerca de 4,5 toneladas por hectare contra 11 toneladas nos EUA. Nada mais longe da realidade, o “agronegócio” brasileiro é extremamente depredador, pois o objetivo tanto dos latifundiários quanto das multinacionais é a obtenção de altas taxas de lucro a qualquer custo e com o mínimo de investimentos.

A Anfeava (Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores), por sua vez, espera que a seca nos EUA e a expansão da fronteira agrícola permitam aumentar as vendas de máquinas para o setor que nos primeiros sete meses deste ano sofreram contração de 1,7 no comparação com o mesmo período do ano passado.

Hoje o Brasil é tri-campeão mundial em uso de agrotóxicos. Esse aumento no uso de venenos está ligado às plantações de lavouras com sementes transgênicas (como de soja e milho), pois muitas pragas estão criando resistências aos agrotóxicos e as sementes transgênicas exigem maiores dosagens de herbicidas. O governo do PT aumenta a cota de ajuda à espoliação imperialista com a criação de organismos como a CNTBio, que nos últimos anos aprovou 33 novas sementes transgênicas sem testes adequados, ou com a exigência do Banco do Brasil de notas fiscais de sementes e insumos agrícolas, que somente são fornecidos pelas multinacionais, como condição para a liberação de créditos.