compartilhar
de de

Raposa Serra do Sol
Ataque às demarcações: história de destruição dos povos indígenas
A tentativa de acabar com a demarcação contínua das terras indígenas é um ataque secular e motivo da extinção de diversos povos indígenas no Brasil

A demarcação de terras indígenas no Brasil de maneira não contínua, que se tenta hoje em Raposa Serra do Sol, há séculos é o principal motivo da dizimação que sofrem os indígenas.

A presença de latifundiários e proprietários em terras indígenas acabou por extinguir ou reduzir os indígenas a terras cercadas por todos os lados por interesses completamente contrários à sua existência.

A história de outras tribos que recentemente sofreram do Estado a alteração de leis sobre suas terras, como dos xavantes, do Alto Rio Negro, e aos guaranis-caiouás, de Mato Grosso do Sul, mostram o resultado que em médio e longo prazo significam a legalização da presença de não índios em terras originárias destas populações: o domínio do latifúndio e a ofensiva para acabar ou pressionar estas populações a migrarem para outras terras.

A tentativa de demarcar terras não contínuas se aprovada irá abrir ainda mais um precedente para que outras etnias sofram uma ofensiva cada vez maior do latifúndio.

Segundo o jornal O Estado de S. Paulo, em publicação digital de ontem, “Os ministros do STF avaliam que o julgamento deve servir de parâmetro para uma nova disputa em curso envolvendo índios guaranis-caiuás e fazendeiros de Dourados, Miranda, Naviraí, Rio Brilhante e Maracaju, todos em Mato Grosso do Sul”.

O povo guarani, que é a maior etnia indígena do País será, em seqüência, o povo que irá sofrer mais com a decisão dos juízes do STF se essa se der em favor dos latifundiários.

Breve história da tomada de terras dos Xavantes e caiouás

A história de tentativas de intervir em territórios do povo Xavante começa em 1830, quando a monarquia pretende promover um plano de “integração” dos indígenas com a sociedade nacional.

De 1830 a 1860, os índios migraram em direção ao Mato Grosso. Já na década de 1830 os xavantes começaram a sofrer outra ofensiva dos latifundiários.

A partir desta época, fecha-se o cerco e o governo de Getúlio Vargas com o Programa de Integração Nacional em 1946, os SPIs (Serviço de Proteção aos Índios), que perseguem indígenas que se recusavam ao convívio com o povo branco. As aldeias do governo de Getúlio Vargas até 1957 foram forçadas a aceitar o contato, época em que se iniciaram com mais força epidemias, perseguições e massacres.

Na década de 1970 houve conflitos na região pela demarcação das terras indígenas que nunca mais conseguiriam recuperar todo o seu território. Atualmente, estão cercados de latifundiários da soja e do gado possuindo uma população de 10.000 habitantes restritas a 328 mil hectares de extensão.

Os guaranis-caiouás, localizados no estado do Mato Grosso do Sul também tiveram suas terras demarcadas de maneira não contínua. Entre os cerca de 370 mil índios existentes no Brasil, os guarani e seus subgrupos caiouá, ñandéva e mbya formam as maior etnia indígena.

Os guaranis formam uma população entre 60 mil e 65 mil pessoas nos Estados do Espírito Santo, Rio de Janeiro, São Paulo, Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul, e especialmente no Mato Grosso, onde somam 42 mil pessoas. São a maior etnia em número e também a etnia que tem mais problemas de terra no país.

Entre 1915 e 1928, o SPI demarcou oito reservas de terra de 18.124 ha, com parcelas destas terras liberadas a agricultores não índios. Em pouco tempo estas terras foram passadas para as mãos dos latifundiários que oprimem os indígenas e vão confinando cada vez mais os indígenas a pequenas terras.

No município de Dourados, por exemplo, 11 mil índios vivem numa área de 3500 hectares.

O cerco do "agronegócio" se fechou especialmente nas duas últimas décadas com o plantio da cana e da soja. Antes se explorava na região a erva-mate até 1920, e em seguida da madeira, de 1920 a 1960 e o gado entre 1960 e 1970. Foi aí que surgiram as grandes empresas baseadas no plantio de soja e de cana, de 1980 a 2003. Para os próximos anos, prevê-se a construção de 30 usinas de açúcar e álcool no Mato Grosso do Sul, com plantações de aproximadamente 700 mil hectares de cana-de-açúcar em pleno território caiouá.

Proporcionalmente ao domínio do agronegócio na região, aumentaram-se as taxas de suicídios entre as populações indígenas caiouá e esta passou a ser uma com os maiores índices de suicídio do País.

As populações indígenas de maior índice de suicídio no país hoje são Guarani-Apapokuva, os Urubu-Kaapor, os Paresi e os Yanomani, os Ticunas, com 28% do total de óbitos entre 1994 e 1996, e os Caiouás, com taxa cerca de 40 vezes maior que média de suicídio entre a população brasileira.

<i1>Massacres promovidos pelos latifundiários

<t1>O massacre promovido contra as populações indígenas são apenas uma mostra do que o latifúndio promove também contra as populações de trabalhadores sem-terra e de camponeses pobres, obrigados a serem expulsos de suas terras para permitir o avanço dos empresários do agronegócio.

Os indígenas são condenados à extinção porque estes possuem ainda menos recursos para reagirem a esta ofensiva e a ataques, armados às doenças e à falta de terras para plantar, comer ou caçar.

A intervenção estatal e capitalista nas terras indígenas é um verdadeiro câncer para a existência destas populações que sobrevivem nas piores condições sem poderem reagir e que recorrem ao suicídio como medida desesperada para a completa falta de perspectivas de desenvolvimento de sua cultura e métodos de sobrevivência que foram sendo esmagados ao longo do tempo.