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Análise Política Semanal
O Brasil e a crise financeira
Ao contrário do que os economistas e palpiteiros de plantão da burguesia afirmam, a economia brasileira pode ser um dos principais alvos do abalo gerado pela recessão norte-americana e a crise dos mercados financeiros internacionais
Nesta semana, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, se encontrou com a ministra francesa da Economia, Christine Lagarde, próxima presidente do G20, para reivindicar do grupo dos vinte países mais ricos do mundo e do FMI que atuem com mais “eficácia” na “proposição de regras para regular os mercados financeiros”.

Em meio à sondagem sobre os desdobramentos da crise junto à cúpula dos países mais ricos, o ministro brasileiro afirmou ainda que o Brasil, juntamente com os demais países chamados “emergentes”, “não devem ser afetados diretamente pela crise internacional” (Folha de S. Paulo, 1/2/2008).

Embora, segundo o ministro, o governo não pretenda diminuir a previsão de crescimento do PIB brasileiro, estimada em 5% para este ano – mesmo que o próprio Banco Central estime um percentual de 4,5% - os efeitos da desaceleração da economia mundial já estão sendo sentidos no Brasil. É o que mostra a redução do saldo da balança comercial do País que apresentou uma queda de 62,5% em relação a janeiro de 2007 e fechou com o menor resultado em cinco anos e meio. O superávit comercial de janeiro deste ano foi de 944 milhões de dólares e um ano atrás estava em torno de 2,5 bilhões de dólares. O total é ainda 74% menor do que o do último mês do ano passado e não ficava abaixo da marca do bilhão de dólares desde junho de 2002.

No acumulado dos últimos 12 meses, o superávit comercial brasileiro foi de 38,45 bilhões de dólares, uma queda de 16,6%. “As vendas ao exterior chegaram a US$ 162,942 bilhões e a as compras, a US$ 124,486 bilhões, crescimentos de 16,8% e 33,3%, respectivamente, sobre o período que vai de fevereiro de 2006 a janeiro de 2007.

“A meta do ministério [do Desenvolvimento] é exportar neste ano US$ 172 bilhões. No ano passado, US$ 160,649 bilhões de produtos brasileiros foram vendidos para o exterior. Não há uma meta de importações ou de saldo da balança comercial. No ano passado, o saldo ficou em US$ 40,039 bilhões” (Folha de S. Paulo, 1/2/2008).

Além destes dados econômicos, o mercado de ações brasileiro teve sua recomendação rebaixada por um dos bancos implicados nos maiores prejuízos do sistema financeiro norte-americano, o JP Morgan. O banco informou na última sexta-feira que “reduziu sua recomendação para as ações brasileiras para ‘neutra’, enquanto elevou a classificação das ações do México para ‘overweight’ (acima da média do mercado)” (idem). O índice EMBI+ (que apresenta o índice dos títulos da dívida de mercados “emergentes”) calculado pelo banco é um dos principais indicadores do risco de investimentos no país e o termômetro da confiança dos investidores na economia brasileira. O “rebaixamento” do Brasil no mercado de ações internacional é um reflexo da desaceleração dos mercados financeiros internacionais.

Os dados concretos divulgados pela própria imprensa burguesa contradizem seus argumentos de que a economia brasileira “caminha solidamente” para um crescimento e de que a recessão norte-americana não teria conseqüências no Brasil.
 
Os “emergentes” salvaram o mundo

Em sua viagem, o ministro Mantega afirmou ainda que as economias dos países chamados “emergentes” foram as responsáveis por “salvar” os bancos americanos em apuros por causa das hipotecas, como o Citigroup.

O ministro afirmou ainda que “os países emergentes são protagonistas da economia mundial, e não mais coadjuvantes. Para Mantega, a crise mostrou como o mundo rico precisa dos emergentes” (O Globo, 31/1/2008). E Mantega acrescentou ainda que foram os fundos soberanos, isto é, aqueles baseados quase que exclusivamente na venda de matérias-primas como gás, petróleo, madeira, minérios e metais preciosos, destes países que salvaram os bancos.

Primeiramente é preciso esclarecer que os chamados países “emergentes”, como Brasil, Índia, Rússia, China e alguns países do Oriente Médio e da Ásia, não têm e não terão sob o regime capitalista quaisquer condição de competir no mercado mundial no mesmo patamar dos países mais desenvolvidos e até mesmo de ultrapassar as barreiras impostas ao seu crescimento pelo imperialismo norte-americano, europeu e japonês.

A sua situação “emergente” vem do fato de que, não tendo sido impedidos completamente de se desenvolver, e por manter em suas mãos enormes recursos naturais e ter sua indústria desenvolvida até certo ponto, produto de gigantescas lutas contra o próprio imperialismo, suas economias se tornaram suficientemente relevantes para a conta da burguesia imperialista. Mantém, em diversos aspectos, mais semelhanças com países extremamente mais pobres como a África e alguns países do Sul asiático do que, como afirmam os economistas burgueses, tendem ao desenvolvimento capitalista livre e desimpedido sob a ditadura do imperialismo mundial.

Segundo o ministro da Fazenda, “a crise detonada pelas hipotecas de alto risco nos EUA (subprime) poderá dar o empurrão que faltava para países como Brasil, China e Índia serem finalmente incorporados nas grandes negociações e no núcleo de decisões do mundo rico, como o Fundo Monetário Internacional (FMI)” (idem). 

Diante de uma avaliação concreta do seu papel na economia internacional, não é possível, tampouco, afirmar que sua participação na operação de “resgate” da crise de um dos principais bancos de investimento norte-americanos tenha sido uma operação considerada “normal” para os padrões do mercado financeiro. Com os mais de 21 bilhões de dólares injetados para salvar os bancos norte-americanos, países como o Kuwait, Singapura, Coréia do Norte e outros abriram mão de suas reservas e se colocaram sob os cuidados do já fragilizado mercado financeiro norte-americano. Serviram de primeira linha de defesa da crise dos bancos norte-americanos, mas, de uma maneira evidente, não têm o suficiente para cobrir todo o buraco aberto pela crise dos principais mercados de ações.

Segundo dados publicados no final do ano passado pela revista de economia do grupo Abril, Exame, as economias da China e da Índia juntas, como exemplos de “emergentes”, representam apenas 7% do PIB mundial. Os EUA, mesmo em crise, são 28% do PIB global. No entanto, não há dúvidas de que a tendência da economia norte-americana, que nas décadas passadas transferiu para os mercados financeiros secundários a bolha financeira, passará a ser sugar impiedosamente as riquezas dos países capitalistas atrasados para tentar se manter em pé em meio à crise.

A política do governo pró-imperialista de Lula reserva para o Brasil o próximo lugar na fila dos países que terão sua economia devastada pelo turbilhão financeiro subordinando a economia nacional aos interesses do imperialismo em crise.
 
Tapando o Sol com a peneira
 
Os dados que refletem os primeiros desdobramentos da recessão norte-americana no Brasil, são rebatidos com as declarações mais otimistas tanto do ministro da Fazenda quanto dos penas de aluguel nos jornais da burguesia.

O colunista Fernando Canzian, da Folha de S. Paulo, escreveu no início da última semana que “a turbulência dos mercados ainda não chegou à economia real (empresas, empregos e renda) e que há chance de ela causar estrago apenas moderado na economia global. Há inclusive dúvidas se os EUA entrarão ou não em recessão”. Avaliando os ocorridos da crise recessiva de 2001 nos EUA, o colunista afirma ainda que “poucos meses depois do tranco, os EUA estavam novamente de pé. Mais: empurraram o mundo para o seu mais longo período de forte crescimento em mais de três décadas, até 2007”.

Segundo o colunista, o “mais longo” e “forte” período de crescimento da economia mundial acaba de passar diante dos olhos dos pobres mortais que viveram durante os últimos cinco anos, no entanto, apenas bancos e fundos de investimentos registraram lucros recordes e a economia mundial, de crise em crise desde a década de 90, mostrou toda sua fragilidade diante do estouro da bolha dos empréstimos imobiliários de alto risco nos EUA.

O autor, seguindo os que avaliaram os impactos da crise na economia brasileira, afirma ainda que as “melhoras significativas” da economia brasileira fez com que o país acumulasse reservas cambiais de 185 bilhões de dólares e produzisse “fortes superávits comerciais” e que isto, aliado ao controle dos gastos públicos seria garantia suficiente da proteção do país diante de um abalo na economia norte-americana.

A julgar pelas informações divulgadas nesta semana, em que a baixa da balança comercial é recorde em cinco anos e meio, os alicerces desta “previsão”, que mais parece uma peça de publicidade em favor do mercado financeiro, dos empresários brasileiros e dos lucros dos bancos, podem ser colocados sob suspeita.

O Brasil tem 16% das suas exportações atreladas aos EUA. A recessão norte-americana, comprometendo outras economias que mantém relações com os EUA e o Brasil, como o caso da China, por exemplo, faria estas exportações diminuírem e diminuiria conseqüentemente as exportações para países como estes.

Outros dados como o aumento de 1,5% do número de empresas inadimplentes no último ano, isto é, o aumento do número de empresas endividadas, divulgado pelo Serasa na última semana, contrariam frontalmente as declarações que aparecem por todo lado na imprensa burguesa brasileira de que o empresariado “forte” seria uma das principais garantias contra as seqüelas da recessão norte-americana no Brasil.

“O indicador Serasa de Inadimplência Pessoa Jurídica aponta que, no ano passado, os títulos protestados lideraram o ranking de representatividade da inadimplência das empresas, com 40,7% de participação. Em 2006, este porcentual foi de 40,2%. Em seguida, aparecem os cheques sem fundos, com um peso de 38,2% na inadimplência das empresas em 2007, contra 39,7% em 2006. Na terceira colocação do ranking, apresentando seguidos avanços, estão as dívidas com os bancos. Segundo o estudo, em 2007, as pendências com as instituições financeiras representaram 21,1% da inadimplência das pessoas jurídicas. Já em 2006, corresponderam a 20,1%” (O Estado de S. Paulo, 30/1/2008).

O próprio aumento da taxa anual de inflação em 2007, chegando a 4,5%, é mais um sinal da reprodução da crise em solo brasileiro.

Outra avaliação, do economista da Fundação Getúlio Vargas e ex-ministro do governo Sarney e do governo FHC, Luiz Carlos Bresser-Pereira, reflete a preocupação do setor “ortodoxo” e ligado aos banqueiros no governo Lula: “Para a ortodoxia a inflação é o risco principal, e sua causa é dupla: de um lado, o aquecimento da demanda, e, de outro, a provável depreciação da moeda que decorrerá de uma diminuição dos investimentos estrangeiros especulativos no Brasil e da queda dos preços das commodities exportadas.

Embora fatores aceleradores da inflação sejam de ordem muito diferentes, ambos apontariam na direção do aumento dos juros pelo Banco Central.

"Entretanto, não faz sentido aumentar juros devido ao aquecimento da demanda, porque o excesso da demanda efetiva já está desaparecendo devido à perspectiva de recessão americana, que cria perspectivas negativas para os empresários brasileiros. O que o presidente solicita, ao contrário, é que se monitore a economia para que a política econômica busque diminuir, em vez de acentuar, a inversão cíclica. (...)

"O problema de curto prazo que o país enfrenta é fiscal, não é monetário. No momento, o quadro monetário é favorável, não justificando medidas corretivas. Não existe risco nem de substancial aumento da inflação nem de crise cambial. No médio prazo, entretanto, o país enfrenta o problema grave da sobreapreciação cambial. A grande queda do influxo de dólares no Brasil em 2008 não decorrerá da diminuição de investimentos especulativos, mas da diminuição do saldo comercial brasileiro devido ao aumento das importações e à diminuição relativa das exportações. É para esse problema que as autoridades econômicas precisam se manter atentas" (Folha de S. Paulo, 28/1/2008).

Dentro destas perspectivas, acreditar que a recessão norte-americana não terá efeitos sobre a economia brasileira e dos demais países chamados “emergentes” seria o mesmo que depositar toda sua confiança em que um enfarto no coração de uma pessoa idosa e cuja saúde vem evoluindo com dificuldades não afetaria outros órgãos nem poderia colocar em risco a sua própria sobrevivência.

A crise recessiva nos EUA terá conseqüências inevitáveis não apenas para o Brasil, o que é por demais óbvio, mas para toda a economia mundial. Não é apenas esta conclusão, tirada de uma análise dos dados mais evidentes sobre a economia nacional que os propagandistas da burguesia tentam esconder a todo custo. A crise financeira e a recessão norte-americana não são prejuízos apenas para a alta camada de poucos milionários que perdem seus investimentos nas bolsas de valores, é a população trabalhadora que perderá seus empregos e sofrerá com a crise inflacionária aliada à recessão, encarecendo o custo de vida. Junto com a recessão aliada à inflação nos EUA pode vir o estopim para uma crise revolucionária, que colocaria abaixo o regime hoje fragilmente equilibrado na especulação financeira e no estado de semi-paralisia do crescimento econômico mundial.

A grande questão para a classe operária e a maioria da população brasileira neste momento não é se a crise vai atingir o Brasil, mas mais precisamente quem vai pagar a conta da crise para que os planos cor-de-rosa do governo Lula e dos grandes capitalistas nacionais dêem em alguma medida um resultado para eles.

A política do governo Lula começará de imediato a ser direcionada para criar um colchão para amortecer a queda retirando dos salários dos trabalhadores e das suas condições de vida em geral.

O problema concreto a ser encarado pela classe operária é o de ter um programa de reivindicações claro diante da crise, a começar pela recomposição e defesa dos salários, defesa dos empregos através da redução da jornada, e um plano de lutas que deve levar em consideração a necessidade de organizar oposições sindicais e outras organizações a partir dos locais de trabalho para organizar uma direção para esta luta inevitável.

A classe operária em momento algum deve acreditar na conversa otimista do governo do traidor Lula porque, neste caso, será ela que pagará a conta enorme da crise mundial.