compartilhar
de de

Serra Pelada
O ouro já tem dono
Fechada desde 1994, a região da Serra Pelada volta a ser palco de disputas e massacres, na iminência de ser reaberta à empresas imperialistas que já têm concessão para a extração do ouro

Os moradores do pacato município de Curionópolis, Sudeste do Pará, concordam que a região voltou a se tornar palco de guerra após o assassinato de Josimar Elízio Oliveira, ex-presidente da Coomigasp (Cooperativa de Mineração dos Garimpeiros de Serra Pelada), morto no dia no dia sete de maio com treze tiros à queima roupa quando chegava em sua casa, no município de Marabá.

O assassinato de Oliveira foi encomendado por um dos três grupos que disputam a direção da cooperativa. Ele havia ganho na Justiça uma liminar para ser reintegrado na presidência da Coomigasp. Como represália, os grupos rivais mandaram matar o ex-presidente.

No dia 18 de maio, cerca de 40 garimpeiros foram presos pela Polícia Militar na sede da cooperativa. Dentre os presos estavam membros do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) e do MTM (Movimento dos Trabalhadores e Garimpeiros na Mineração), grupo formado por dirigentes de pequenas cooperativas e pelo MST, que haviam ocupado a sede da Coomigasp dias antes em resposta ao assassinato de Oliveira.

O governo do Pará informou que a polícia foi acionada para supostamente dar fim a uma disputa interna entre cerca de dois mil garimpeiros que disputam a direção da cooperativa, mas esconde que existem interesses muito maiores na área que durante os anos 80 ficaram mundialmente famosos por ser o maior garimpo a céu aberto do mundo. 

Terra sem lei 

Estamos falando da região de Serra Pelada, onde fica Curionópolis. A cidade tem este nome por causa do atual prefeito, Sebastião Rodrigues de Moura, o Curió, major enviado pela ditadura militar para intervir na região em nome do governo federal e ex- oficial do Serviço Nacional de Informações (SNI).

Em 2002, ele foi acusado de estar envolvido no assassinato do presidente do sindicato dos garimpeiros de Curionópolis, Antônio Clênio Cunha Lemos, ligado a um grupo de oposição ao governo local. O pistoleiro que matou Clênio, o maranhense Josivaldo Oliveira Barros, conhecido como Nego Josa, confessou que foi pago por assessores de Curió. Vale lembrar também que o atual prefeito da cidade que leva o seu nome ficou conhecido na ditadura militar como capitão Luchine, torturador e assassino de dezenas de pessoas durante a repressão contra a Guerrilha do Araguaia. Esteve à frente também da criação de cemitérios clandestinos que até hoje escondem corpos de desaparecidos.

Os recentes conflitos estão quebrando anos de relativa paz na região. Curionópolis está entre os municípios de Paraupebas e Eldorado dos Carajás. No primeiro está localizado a ferrovia da Companhia Vale do Rio Doce. É de lá que saem as toneladas de minério extraído pela companhia e foi recentemente ocupada pelo MST durante algumas horas. O outro município citado registrou um dos maiores massacres já realizados contra os sem-terra. Em abril de 1996, dezenas de camponeses foram assassinados pela Polícia Militar do estado do Pará por lutarem por um pedaço de terra. É portanto uma região mergulhada em conflitos agrários e disputa de muitas mineradoras nacionais e estrangeiras.

O auge da Serra Pelada foi em 1983, quando foram extraídas 14 mil toneladas de ouro. Hoje, o Ministério de Minas e Energia diz que o depósito de ouro da região se esgotou. A própria Vale, antiga dona da região, também afirma que não vale mais a pena investir nesta área. O que foi a Serra Pelada, um buraco gigantesco formado por dezenas de milhares de garimpeiros durante anos, se tornou num enorme lago inutilizável. Porém, a grande questão é: será mesmo que não existe mais ouro em quantidades significativas?

 
Em busca do ouro
 
Depois de 14 anos fechada, Serra Pelada pode novamente se tornar região de garimpo. Mas não estará nas mãos do povo, e sim das empresas imperialistas que duvidam que o ouro tenha acabado. Em janeiro deste ano, o Departamento Nacional de Pesquisas Minerais (DNPM), o mesmo órgão que manteve sob sigilo a existência de ouro na área até a notícia vazar em 1977, concedeu autorização para a empresa canadense Colossus Minerais Inc., que já está pesquisando a quantidade de ouro ainda existente no local.

Ao contrário do que o governo afirma (ou mente), garimpeiros dizem que todo o ouro já extraído de Serra Pelada ao longo dos anos - dezenas de milhares de toneladas - foi apenas um arranhão de todo ouro ainda a ser descoberto. Por que uma empresa canadense estaria tão interessada numa região "morta"? A suspeita nos leva a um fato ocorrido na década de 30 que ficou conhecido como o "escândalo do petróleo". Na época, o Departamento de Geologia Brasileiro mentia descaradamente alegando que o Brasil não possuía reservas de petróleo, enquanto todo o restante do mundo descobria o ouro negro. Descobriu-se mais tarde a existência de uma complexa teia de manobras na qual o Brasil se mantinha um eterno dependente do petróleo norte-americano, que ainda nesta época produzia excedente do óleo e garantia enormes lucros com a exportação da commoditie.

O governo Lula pode ter herdado um acordo com empresas estrangeiras exploradoras de ouro. A Colossus tem um prazo de três anos para concluir seus estudos. Se o resultado for positivo, a empresa dividiria o ouro com os cerca de 40 mil garimpeiros cadastrados pela Coomigasp, atual autorizada do governo na concessão do metal.

 
Quem é a Colossus Minerais
 
Assim como os garimpeiros, a Colossus também acredita que a região seja uma fonte riquíssima de ouro e ainda garantiu que assim que a notícia for dada, a migração de garimpeiros não ocorrerá como aconteceu nos anos 80, pois a extração está sendo feita atualmente de forma mecanizada. O ouro estaria além do que um simples garimpeiro poderia alcançar. Duvide disso também.

Esta empresa atua também em outras áreas do Brasil, como a Sumidouro, em Minas Gerais, próximo a cidade de Mariana; Natividade, no Estado do Tocantins, próximo à cidade de Natividade e Serra Pelada, no Sudeste do Pará.

Segundo o geólogo Heleno Costa, vice-presidente de Operações da Colossus no Brasil, "todos os projetos são desenvolvidos em parceria com outras empresas, sempre a Colossus assumindo os investimentos e o gerenciamento técnicos e financeiros" (Portal da da AGASP - Associação dos Garimpeiros de Serra Pelada).

Ele revela também o quanto a empresa já está investindo na região "sem saber" se vai encontrar ouro ou não: "Estamos definindo o formato da “zona mineralizada” para cubar a reserva de ouro e minérios associados. Os investimentos previstos são da ordem de 18 milhões de reais. Após a pesquisa ainda haverá grandes investimentos na implantação da mina e da planta de beneficiamento. Ao final da pesquisa, poderemos estimar o valor total dos investimentos na mina" (Idem).

Ele também explica em detalhes como será dividido o ouro quando for encontrado: "A COOMIGASP é uma entidade regida pelas normas do cooperativismo, com mais de 40.000 cotistas, ou seja, não possui ações. A Colossus é uma sociedade anônima com mais de 50 milhões de ações e os acionistas são anônimos. A Companhia de Desenvolvimento Mineral de Serra Pelada (SPE), tem essencialmente dois acionistas, a COOMIGASP e a Colossus Geologia e Participações, e por uma questão legal, cada um dos três membros do Conselho de Administração possuem nominalmente uma ação da SPE, as quais deverão ser devolvidas ao final de seus respectivos mandatos. Trata-se de uma sociedade anônima fechada, portanto não pode colocar ações na bolsa. A forma como a Colossus vai distribuir entre seus acionistas a sua parte nos resultados da lavra (mineração) vai ser decidido por sua diretoria e aprovado em Assembléia Geral dos acionistas da Colossus. Como os cooperados da COOMIGASP participarão dos resultados, deve ser decidido pela diretoria da COOMIGASP e pela assembléia geral dos cooperados".

 

Na mão dos estrangeiros

O garimpo em Serra Pelada foi fechado em 1994. Desde a sua abertura, cerca de 60 toneladas de ouro foram extraídas. O lago que se formou cobre um buraco de 180 metros de profundidade.

Desta vez, são as empresas estrangeiras que pretendem evitar o formigueiro humano que marcou a imagem de Serra Pelada nos anos 80. Se existe muito mais ouro do que se possa imaginar, desta vez a extração estará sob o controle da Colossus e, para resguardar tais interesses, a lei da selva prevalecerá.