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Luta do Negro
O Movimento Negro Brasileiro
Nos períodos seguintes surgiriam novas expressões do movimento negro, desde grupos alinhados à política burguesa até os movimentos independentes ligados à classe operária

O movimento negro surgido no início da crise da República Velha, expressa pelos marinheiros liderados por João Cândido na Revolta da Chibata, foi a primeira expressão da organização dos negros no Brasil desde o fim da abolição da escravidão. Nos períodos seguintes surgiriam novas expressões do movimento negro, desde grupos alinhados à política burguesa até os movimentos  independentes ligados à classe operária

O período que se seguiu à forçada abolição da escravatura pela princesa Isabel aprofundou a discriminação e a opressão no negro nos séculos seguintes.

Como instrumento organizado contra o racismo e por suas liberdades democráticas, a partir do início do século vão se desenvolver nas cidades as primeiras organizações de luta pelos direitos dos negros, com base nos exemplos históricos do Quilombos dos Palmares, da Revolta dos Búzios entre outras, cuja experiência demonstrou que somente o negro organizado é capaz de obter resultados em sua luta contra a opressão do Estado capitalista.

Um dos principais e mais importantes demonstrações no início do século XX foi a Revolta da Chibata em 1910, quando o marinheiro negro João Cândido liderou um movimento que colocou a República Velha de joelhos.

Apesar de ter sido abolido oficialmente os castigos corporais, a Marinha brasileira continuava punindo os marinheiros, na maioria negros, com violência física a golpes de chibatadas. No dia 22 de novembro de 1910, o marinheiro Marcelino Rodrigues foi punido com 250 chibatadas, assistida por toda a tripulação do navio. Este foi o estopim para a maior rebelião ocorrida dentro das Forças Armadas brasileiras até hoje e uma das maiores do mundo.

Liderado pelo marinheiro negro João Candido, o navio de guerra Minas Gerais foi o primeiro a se sublevar, seguido pelo São Paulo e pelo Cruzador Bahia, centenas de marinheiros negros se insurgiram contra os oficiais e seus superiores prendendo-os e em alguns casos matando os que resistiam à revolta dos marinheiros.

Os marinheiros queriam o fim das chibatadas e a mensagem encaminhada às autoridades brasileiras era bem clara “Não queremos a volta da chibata. Por isso, pedimos ao presidente da República, ao ministro da Marinha, queremos resposta já e já. Caso não tenhamos, bombardearemos a cidade e navios que não se revoltarem”.

Uma após outra quase toda, a poderosa esquadra da marinha brasileira foi se insurgindo, ficando às ordens do jovem marinheiro João Candido e os demais líderes da revolta, tendo também grande apoio da população.

Lideranças liberais da política burguesa, como o senador abolicionista Rui Barbosa, Campos Sales, Bernardino Monteiro e Sá Freire, além do deputado José Carlos de Carvalho, mesmo não apoiando a revolta, eram a favor de uma negociação com os amotinados, assustados com as conseqüências da mobilização.

Depois de intensos debates, são aprovadas sobre forte pressão as principais reivindicações dos marinheiros, entre elas a anistia para todos os marinheiros que participaram da revolta, inclusive os que estiveram envolvidos nas mortes dos oficiais, além do fim das chibatadas.

Em 25 de março, com as suas principais reivindicações atendidas, os cerca de três mil rebeldes resolvem terminar o levante, mesmo com a oposição de muitas outras esquadras, que insistiam em continuar a revolta em razão do grande apoio tinham.

A imprensa negra

Após o levante dos marinheiros, o movimento negro tentará de diversas formas se organizar, montado associações, clubes e jornais especialmente dirigido à população negra. Entre 1903 e 1963 vão surgir em todo o país mais de 20 jornais escritos por negros, dentre os quais A Rua e o Xauter, em 1916, o Alfaiate em 1918, A Liberdade e o Bandeirante em 1919, A Sentinela em 1920, e o Kosmo, no ano seguinte. Além destes, surgiram no interior do movimento muitos outros títulos - O Getulino, O Clarim da Alvorada, Elite, Auriverde, Patrocínio, Progresso, A Chibata, A Raça, a Tribuna Negra etc.

Com uma imprensa independente, negros em sua maioria procedentes da classe operária passaram a reivindicar e fazer do jornal a tribuna das reivindicações específicas dos negros.

No início da década de 30, a cidade mais industrializada do país, São Paulo, possuía uma população de pouco mais de 922 mil habitantes, das quais 100 mil eram negros vivendo em condições extremamente precárias e em fétidos cortiços. Em um contexto de extrema opressão contra as condições de vida, o movimento negro vai se destacar em âmbito nacional, com ações principalmente voltadas para movimentos culturais, bem-estar social e integração da população negra na sociedade.

A Frente Negra Brasileira

A Frente Negra Brasileira foi um dos principais movimentos do início do século. Criada em 16 de setembro de 1931 tendo como principais líderes, José Correia Leite, Arlindo Veiga dos Santos, Francisco Lucrécio e Raul Joviano, a Frente Negra foi um movimento de repercussão nacional, tendo sede nos principais estados do país, como São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Rio Grande do Sul, Bahia, Espírito Santo, Maranhão e Sergipe.

Em São Paulo, sua sede era instalada na rua da Liberdade, local onde fica atualmente a Casa de Portugal. Segundo a organização, ela chegou a reunir cerca de 60 mil filiados em seis anos de existência.

Durante a Revolução Constitucionalista, a Frente Negra se recusou a apoiar qualquer um dos lados, o que vai ocasionar uma dissidência, formando-se a Legião Negra, que vai lutar do lado dos paulistas na revolução.

Em 1933 a organização funda o jornal A Voz da Raça, periódico de caráter nacionalista, muitas vezes comparado ao programa do Movimento Integralista de extrema-direita, fazendo críticas à União Soviética e exaltando palavras-de-ordem como “Deus, Pátria, Raça e Família”.

O presidente da Frente, Arlindo Veiga Santos, era monarquista e integrava também o Centro Monarquista de Cultura Social e Política Pátria Nova, defensor assíduo da volta da coroa no Brasil.

Em 1936, a Frente Negra Brasileira se registra como um partido, lançando candidatos negros em algumas cidades do país. Com a instauração do Estado Novo em 10 de dezembro de 1937, Getúlio Vargas coloca na ilegalidade todos os partidos.

Com a sistemática repressão atingindo todas as organizações políticas, a Frente Negra se vê obrigada a mudar seu nome para União Negra Brasileira. Perdendo muito dos seus filiados com o aumento da repressão, ela é obrigada a mudar a sua sede de local, o que vai ser considerado o fim da Frente Negra Brasileira.

O Movimento Negro Unificado

Depois do fim da ditadura do Estado Novo, pouca coisa vai se destacar no movimento negro brasileiro, o que vai se agravar ainda mais com o golpe militar de 1964 e a repressão a todos os movimentos políticos e sociais.

Em meados da década de 70 e com a crise da ditadura, as questões raciais passam a ser discutidas nas universidades, surgindo em 8 de dezembro de 1975 o Grêmio de Arte Negra e a Escola de Samba Quilombo.

No ano seguinte entrava em discussão a criação de um movimento negro de caráter nacional, sendo criado pouco tempo depois o Movimento Negro Unificado contra a Discriminação Racial (MNUCDR), posteriormente MNU - Movimento Negro Unificado.

Em 7 de Julho de1978 o MNU vai realizar a sua primeira manifestação pública, tendo como motivo o racismo sofrido por quatro jovens negros no time juvenil de voleibol do clube de Regatas do Tietê, proibido de participar do clube, além da morte de em trabalhador negro, torturado e morto por policiais. A manifestação teve o apoio de diversas outras entidades negras e contou com cerca de três mil pessoas desafiando os militares. Essa manifestação é considerada como o início do movimento negro contemporâneo.

O estrangulamento da luta contra a ditadura conduziu, também, ao estrangulamento e à cooptação dos movimentos negros dos anos 70 que hoje integram o governo Lula e se dedicam a uma atividade sem maiores conseqüências revolucionárias.