É um espetáculo surpreendente ver milhares de pessoas forçadas a debater uma falsa questão, colocada como uma mera cortina de fumaça para ocultar os verdadeiros interesses da crise que vive nesse momento a mais importante universidade do país, a Universidade de S. Paulo.
Estamos nos referindo, logicamente, à questão da segurança na USP.
O governo do Estado de S. Paulo e a reitoria da USP, apoiados pela máquina sinistra de desinformação da imprensa capitalista, cujo desapego à verdade conhecemos desde a época tenebrosa da ditadura militar, querem levar a população a acreditar que os estudantes da USP se opõem a um determinado plano de segurança destas autoridades públicas.
Esse raciocínio não é apenas falso, como é uma falsificação claramente mal intencionada das autoridades e da imprensa e, mais ainda, o exato oposto da verdade.
Para conseguir esse resultado e envolver muita gente desinformada e outros sem espírito crítico, assinalam o fato de que um estudante foi assassinado nas dependência do campus.
Ocorre que o problema da PM foi colocado antes, de uma maneira tão marcante que não poderia ser ignorada por ninguém. Em 2009, a reitoria chamou a Polícia Militar para o Campus com o objetivo de esmagar não apenas a greve, como o próprio sindicato dos funcionários, o Sintusp.
Quem poderia deixar de lado esse fato?
Mais ainda, quem poderia deixar de lado esse fato quando se sabe que esta intervenção da PM levou a uma mobilização estudantil que expulsou efetivamente a PM no campus, em uma grande humilhação política tanto para a administração universitária como para o governo do Estado, na época, José Serra? Anteriormente, o governador já havia demonstrado medo de utilizar a polícia para invadir a reitoria na famosa ocupação pelos estudantes em 2007.
Acrescentemos mais um detalhe. Foi o próprio Rodas que chamou a PM para invadir as arcadas no Largo S. Francisco, para dissolver ali uma manifestação política que havia ocupado aquela unidade da USP.
Rodas foi eleito reitor. Sim, eleito. Porque eleição no Brasil é isso mesmo, uma farsa que encobre a decisão pré-estabelecida dos poderosos de quem vai ser o escolhido. O único problema da eleição foi que Serra, diante da oposição dentro da própria burocracia, foi completamente incompetente para sagrar nas águas sagradas da eleição o seu homem de confiança. No entanto, não se abalou e elegeu ele mesmo Rodas reitor contra o voto de todo mundo.
A manobra de Rodas de utilizar como pretexto o assassinato de um estudante na USP para formalizar um convênio para que a PM permanecesse na universidade em tempo integral, foi uma manobra grotesca. Somente foi levada a sério devido ao fato de que entre os que seriam oposição a Rodas dentro da burocracia e do movimento estudantil controlado pela burocracia, o nível intelectual e político é o mais baixo possível. Em qualquer ambiente político mais crítico, Rodas teria que ter se esforçado muito mais.
A imprensa, assalariada pelo governo do PSDB, completou a operação. De que vale uma mentira sem consistência sem o apoio da máquina industrial de repetição de mentiras que é a imprensa capitalista? Cumpriram o seu papel. Fizeram uma campanha intensa. Repetiram e os bem pensantes foram acuados por esta campanha. Um espetáculo circense, mas dentro dos limites em que foi realizada, conseguiu ser efetiva. Uma espécie de 1984 caboclo.
A base da campanha é uma falsificação vergonhosa e até burlesca dos fatos. As lutas de 2007 e 2009, a expulsão da polícia e outros acontecimentos foram deixados de lado. Agora, muita gente discute a questão da “segurança” na USP como se não fosse uma mera manobra, muito mal cozinhada, além de tudo.
Não há nenhum debate sobre a segurança na USP. É uma mera cortina de fumaça.
Poderíamos entrar em outros debates ainda mais grotescos. Um jornalista da Veja, por exemplo, disse que a entrada da polícia na USP e a desocupação da reitoria seria o “restabelecimento do Estado de Direito”. Já se sabe que o papel aceita tudo, até mesmo as mais lamentáveis e cômicas bobagens. No entanto, isso mostra a fantasia pueril que vive a burguesia brasileira e as pessoas que passam por seus intelectuais. A polícia brasileira é conhecida internacionalmente pela prática rotineira de tortura. Uns audaciosos fizeram recentemente um filme onde apresentam – temeridade! – como herói um capitão da PM carioca. O herói apareceu no filme condenando uns estudantes como maconheiros e dizendo que o policial que presenciou a cena, se fosse realmente um agente da lei, teria dado voz de prisão ali mesmo. No quadro seguinte, o austero defensor da lei aparece ele mesmo torturando uma mulher dentro da sua própria casa, sufocando-a com um saco de plástico na cabeça. Ninguém explica no filme qual lei que autoriza a tortura de pessoas em suas próprias casas pelo defensor do Estado de Direito. Embora o filme passe por um retrato da realidade, nenhum dos sonolentos funcionários do Estado de Direito abriu um processo para investigar esta prática de tortura na sociedade. Esse é o Estado de Direito da nossa admirável burguesia brasileira. Esse é o nível intelectual risível da intelectualidade direitista. A única conclusão que se pode tirar é que não têm a mais remota noção do que significa a expressão Estado de Direito.
Não se trata apenas de que a discussão sobre segurança pública na USP seja uma farsa. Não se trata mesmo do fato histórico de que a polícia é um braço armado dos ricos contra os pobres e não anjos divinos da segurança. Nem mesmo do fato de que a direita facistóide em todo o mundo procura, da maneira mais óbvia possível, explorar o medo da classe média conservadora e besta para acabar com qualquer direito individual em troca da preciosa proteção que oferecem. O debate todo se situa muito abaixo disto tudo. Todo a discussão sobre segurança no Brasil é ridícula e farsesca. A tal ponto que não passa da mais grosseira e antiquada demagogia eleitoral. Uma exploração demagógica e sangrenta do medo das pias senhoras de classe média assustadas com o fantasma da criminalidade.
Qualquer pessoa minimamente informada sabe que o sistema de segurança existente, baseado na repressão em grande escala, está falido. Onde, no Brasil? Não, aqui nunca sequer conseguiu ser colocado em prática. Está falido nos EUA, onde o sistema carcerário que já engloba três milhões de pessoas, cerca de 1% de toda a população, não para de crescer e não pode ser alimentado, financeiramente, por um Estado falido. O debate é sanguinolento e trovejante, mas inócuo como sistema social. Intelectualmente é uma idiotice da pior espécie. Sua única função prática e muito precária, pelo menos no caso brasileiro, é criar o clima de terror de Estado. Fica melhor descrito pela famosa citação do desolado Macbeth, depois que a sua atividade também sanguinária fracassa lamentavelmente, como a política da direita nacional: “it is a tale told by an idiot, full of sound and fury, signifying nothing”. Me perdoem algum erro, cito de memória.
Resumo da trama: o que está em pauta na USP é a tentativa do integralista Rodas e seus asseclas de impor um clima de terror na USP contra toda a comunidade universitária com ameaças administrativas e para os mais rebeldes, com a truculência e o terror policial. Nada mais, nada menos. Acreditam que a comunidade uspiana e a população paulistana vão assistir a esta tentativa de estupor passivamente.
Por detrás disso tudo, o que está em pauta é uma operação de privatização da USP, que Rodas cinicamente e no melhor estilo da direita nacional, chama de “modernização”.
É isso que é preciso divulgar em todos os lados.