O grande escritor negro norte-americano Ralph Ellison descreveu o negro em seu maior romance como um homem invisível.
Escritor negro? Será que os novos humanistas de direita e de esquerda, que querem riscar do mapa ideológico a noção da sociedade dividida em negros e brancos, perdoarão este abuso?
O homem invisível é também um homem sem nome e sem controle sobre a sua vida.
No Brasil, o homem invisível não apenas sofre todas as pancadas que a vida na sociedade branca ofereceu e oferece aos seus iguais nos EUA como, também, nunca teve direito à distinção da cor da pele.
Qualquer pessoa que conheça pouco da história nacional sabe do enorme esforço que a classe dominante fez para apagar a presença do negro na história nacional. Rui Barbosa chegou ao extremo de queimar grande parte dos documentos da escravidão com o objetivo explícito de apagar o passado.
Quem quer lembrar? Quem quer distinguir? O algoz ou a vítima? O opressor ou o oprimido? Quem quer a invisibilidade? Quem quer manter o passado vivo, o judeu ou o nazista, o governo turco ou os armênios, o Estado de Israel ou os palestinos, o escravo ou o senhor de escravos?
A resposta salta com tal velocidade aos olhos ao se fazer a pergunta que sequer é preciso respondê-la.
Não há limites para o cinismo da direita brasileira na defesa dos seus interesses. Seu alvo do momento é justamente a noção de que no Brasil existam negros ou como eles dizem para aparentar uma análise científica, não há “raça” negra. É a volta da ideologia racista de que no Brasil há uma “democracia racial”.
Atualmente, um dos seus focos de ataque é a população negra e as cotas nas universidades. Para se opor à política – muito moderada, diga-se de passagem, uma verdadeira esmola – do governo Lula, de reservar uma pequena porcentagem de vagas nas universidades públicas para os negros, a direita quer provar nada mais, nada menos que o negro não existe.
Toda a luta dos negros, seus mortos, sua cultura política, sua literatura e arte nada mais seria que uma espécie de neurose coletiva.
Os grotescos homens da Ku-Klux-Klan que queimavam cruzes e linchavam negros agiam movidos por uma forma de delírio.
Delirantes também eram os governos que afixavam cartazes dizendo “só para negros” ou “só para brancos”.
Delirantes foram os Martin Luther King, Malcolm X, Panteras Negras, Poder Negro, W. E. B Dubois, os movimentos de negritude no Haiti, os intelectuais africanos, os movimentos brasileiros para a emancipação do negro.
O objetivo desta farsa é o pior possível: impedir que a população negra, que é maioria no país, possa freqüentar a universidade, privilégio que sempre foi reservado aos brancos. Mas não pode aparecer como sendo fruto do mais puro racismo de uma pequena elite branca.
Por isso, a direita iniciou toda uma campanha que visa provar que não há desigualdade entre negros e brancos que justificasse a adoção de uma medida como as cotas e que, na realidade, não há nada que separe o negro do branco. Seria preciso explicar então porque menos de 5% dos estudantes de universidades públicas no país são negros, porque estes ocupam as posições mais mal remuneradas e ganham menos do que os brancos.
Não se poderia definir quem é negro e quem é branco. Mas essa distinção foi estabelecida na prática há séculos no Brasil, a partir da escravidão. Os escravos no Brasil podiam ser identificados e separados do restante da população por uma característica muito marcante: eram negros.
Foi o critério estabelecido pelos escravagistas, pelos senhores de escravos e foi a partir dele e da condição real em que se encontrava o escravo que se criou uma brutal desigualdade entre negros e brancos no país.
Dizer que o negro não existe, não apaga a escravidão, não elimina a monstruosa opressão da população negra, não os tira das favelas nem os coloca nas universidades: apenas mascara sua verdadeira situação, de opressão e miséria.
Recentemente, o senador do DEM, Demóstenes Torres, chegou a declarar inclusive que a que as negras não teriam sido estupradas pelos senhores de escravos, mas que a miscigenação no Brasil se deu de forma consensual. Os direitistas brasileiros, como os seus homólogos de todos os países, são conhecidos pela sua falta de inteligência e de respeito pela inteligência alheia.
Mais uma vez, a direita mais criminosa, a mesma responsável por milhares de torturas e assassinatos durante a ditadura militar, se investe de argumentos pseudo-humanitários e democráticos para os objetivos mais espúrios.
Se não existem raças, não existe o negro, não existe também sua opressão e menos ainda pode existir sua luta. Muito conveniente para os que não pretendem abrir mão de seus privilégios.
Chamamos todos os que se dizem socialistas, de esquerda ou simplesmente democráticos a enterrar mais esta tentativa racista de obliterar o negro da sociedade brasileira.