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Jornal dos Sports - Entrevista
Entrevista para o Jornal dos Sports/RJ
A- Perfil do candidato
Aos 45 anos, nascido em São Paulo, é casado (com Anaí Caproni) e pai de três filhos (Natália, 17 anos; João Jorge, 5 anos; e Carlos Henrique, 7 meses). É jornalista e tradutor. Foi professor de inglês de 1978 a 1980. Como jornalista, trabalhou na Assessoria de Imprensa da CUT Estadual São Paulo, de 84 a 86; no mesmo período, foi chefe do departamento de imprensa do Sindicato dos Químicos de São Paulo e diretor da CUT Regional Grande São Paulo (1986). É tradutor nas áreas de literatura e política. Já publicou vários livros, entre eles: O que é o Trotskismo, André Breton e o Surrealismo, Aonde vai a esquerda, O que foi a Revolução Russa de 1917, A Revolução Alemã de 1918 etc. Militou no PT desde a sua fundação até 1990, quando foi expulso juntamente com centenas de companheiros pela oposição à política de colaboração de classes.
Seu avô, João Jorge Costa Pimenta, foi um pioneiro do movimento operário brasileiro. Primeiro, como anarco-sindicalista, foi fundador da COB e dirigente da famosa greve geral de 1917, que conquistou a jornada de oito horas. Foi fundador do PCB, em 1922 e, depois, da Liga Comunista, com Mário Pedrosa e outros, seção da IV Internacional fundada por Leon Trotski.
Rui Costa Pimenta iniciou a vida política participando das mobilizações estudantis contra a ditadura militar no final dos anos 70. Foi estudante de jornalismo da Faculdade Cásper Líbero e do curso de Letras da USP, onde foi diretor do Centro Acadêmico em 1979. É o atual presidente nacional do PCO e editor responsável pelo jornal Causa Operária.
B - Algumas perguntas
Antes de tudo, qual é o seu clube do coração?
São Paulo Futebol Clube... desde criança.
Quais os esportes que acompanha ou gosta de praticar?
Aprecio o futebol, o xadrez e o boxe. Gosto de praticar, sempre que possível, futebol e xadrez.
Já foi atleta? Conte um pouco de sua vida esportiva.
Nunca fui atleta, mas sim um aficionado do esporte.
O seu ídolo no esporte?
São vários os ídolos. No futebol, por exemplo, cito Garrincha, Pelé e o goleiro/artilheiro atual do São Paulo, Rogério Ceni. No boxe, Muhamed Ali. No xadrez, o cubano José Raul Capablanca e o tcheco W. Steinitz.
Faça um resumo dos seus principais projetos para o esporte.
O PCO considera que, grosso modo, inexiste uma política de apoio ao esporte no atual governo. A maioria esmagadora da população tem raras oportunidades de lazer, cultura e prática desportiva. Nos bairros pobres do país, o limitado acesso ao esporte restringe-se à pequena prática na escola e nas peladas de rua.
As possibilidades de os filhos da classe trabalhadora desenvolverem suas habilidades esportivas e, com isso, brotar no país um número grande de talentos, são quase inexistentes. Raros são os espaços públicos destinados a aulas de futebol, basquete, vôlei, xadrez, natação etc. Os poucos segmentos da população que dispõem de recursos associam-se a clubes, que cobram mensalidades inacessíveis para a maioria.
Neste cenário, como poderiam brotar talentos na periferia das cidades? A chance de que um grande atleta desponte num bairro pobre é quase nula. Mesmo um esporte popular, como o futebol, é totalmente abandonado. Quantos Cafus não poderiam despontar nas periferias do país e erguer taças pelos quatro cantos do mundo?
O PCO defende um investimento estatal massivo no esporte, na cultura e no lazer, como forma de integrar o conjunto da população a estas práticas. Esse investimento deveria ser centralizado na criação de centros culturais nos bairros (que ofereçam aulas dos mais diferentes esportes e permitam o uso popular de quadras, piscinas etc.) e no fortalecimento da educação pública. As escolas, ao lado dos centros culturais públicos, devem ser a base do desenvolvimento esportivo da população.
Uma política como essa garantiria uma massificação dos esportes no país, o que beneficiaria o conjunto da população e, de quebra, criaria as condições para o surgimento de milhares de craques e campeões.
C - Outras questões
1)Os clubes reclamam que investem muito dinheiro na formação de atletas e depois os perdem para outros centros. Um exemplo disso é o da ginasta Daniele Hopólito, formada no Flamengo, que vem sendo convidada pela Confederação de Ginástica Olímpica para se transferir para Curitiba, onde há um centro olímpico. O senhor acha que o governo deveria investir mais nos esportes olímpicos dos clubes para evitar a saída dos atletas justamente de onde são formados?
Resposta: O PCO defende que o governo invista maciçamente na prática esportiva, visando a sua popularização junto ao conjunto da população. Isso deve se dar a partir do fortalecimento do sistema educacional público e da criação de centros culturais e desportivos nos bairros. Com isso, o papel de estimular a prática esportiva estaria nas mãos do governo e não dos clubes, que acabam fazendo isso de maneira ultra-limitada, apenas para minúsculas parcelas da população.
2)O Brasil deveria seguir o modelo norte-americano de investimento nos esportes, no qual as universidades têm apoio governamental para a formação de atletas de ponta? Ou para um país como o Brasil não seriam mais adequados os modelos seguidos por Cuba, China, Austrália, que investem no esporte com políticas ligadas à educação e obtêm êxitos indiscutíveis nas competições internacionais?
Resposta: Um governo do PCO viabilizaria no país um modelo semelhante ao cubano, com investimentos públicos maciços através da educação pública e da popularização do esporte. Por certo, um modelo como esse faria despontar um sem-número de Danieles, Pelés e tantos outros símbolos do esporte nacional.
3) O governo federal ajudou financeiramente os bancos com cerca de R$ 60 milhões e agora pretende criar uma espécie de Proer dos clubes. O senhor acredita que esse tipo de investimento resolverá o problema dessas instituições? Ou acha que não é obrigação dos governantes colocar dinheiro público nelas?
Resposta: A ajuda do governo FHC aos bancos, através do Proer, foi um dos episódios mais escandalosos da história recente do país. Foram bilhões de dólares que deixaram de ser aplicados em saúde e educação, por exemplo, para regar os bolsos de banqueiros nacionais e estrangeiros. Da mesma forma que critica veementemente o Proer do bancos, o PCO discorda que seja criado um plano semelhante para financiar os clubes. Por outro lado, tais clubes já são patrimônio cultural nacional, muitos deles com mais de 100 anos de existência. Por isso, o governo não deveria permitir que quebrassem e fechassem as portas. A proposta do PCO é que tais clubes, se falidos, sejam estatizados e que seu controle passe a ser exercido diretamente pela comunidade de sócios e usuários.
4)Qual é a sua posição em relação ao Código de Defesa do Torcedor, criado pelo Grupo de Trabalho Especial do Ministério do Esporte e Turismo (GTE)?
Resposta: O PCO é favorável a todas as medidas que visem defender os direitos do torcedor, que acaba sendo a vítima primeira das negociatas que envolvem os cartolas dos clubes e os meios de comunicação, como as televisões. Neste sentido, a proibições de que sejam mudados horários e regras, à revelia do torcedor, são totalmente válidas. O esporte deve ser organizado para o público e não para os grandes grupos econômicos em busca de lucro.
O Código em questão, no entanto, traz algumas medidas que não podem ser aceitas pela população. Uma delas é o aporte de recursos do governo para sanear os clubes, que estariam à beira da insolvência. Como consta na resposta 3, o PCO é contrário à destinação de recursos públicos para fins privados. Se há uma situação de quebra financeira dos clubes, o partido defende que o governo os estatize e os coloque sob controle popular direto (controle dos associados e usuários).
5)Com a criação do Código, as datas dos jogos dos campeonatos não seriam mais modificadas. No Brasil, o torcedor nunca sabe quando as competições terão início ou fim... o que acha disso?
Resposta: A medida é boa, pois protege o torcedor das manobras de dirigentes e meios de comunicação, como abordamos na questão anterior.
6)Uma rede estatal de TV da Itália quer reduzir pela metade (U$ 88,8 milhões para US$ 45 milhões) o que paga aos clubes pela transmissão do Campeonato Italiano. A televisão acaba se achando proprietária dos atletas e das instituições. No Brasil, a situação é praticamente a mesma. O senhor acha que a TV pode ter todo esse poder sobre os clubes?
Resposta: Os grande canais de televisão do Brasil, a exemplo do que ocorre em outros países, agem como se fossem proprietários das competições, determinando horários e restringindo acesso a outros veículos de comunicação. Trata-se de uma política que está destruindo o futebol no país e os grandes prejudicados sempre são o torcedor, o desportista e o profissional do esporte. O PCO acha que o direito de retransmissão não poderia ser monopolizado por nenhum canal de televisão, mas sim aberto a todos os veículos de comunicação interessados. Para transmitir os jogos, estes canais deveriam pagar diretamente para os clubes, não decorrendo daí nenhuma imposição em relação a horários, locais etc.
7)Como fazer para evitar que os principais jogadores sejam vendidos para o exterior? Construindo estádios como os da Coréia e do Japão e estabelecendo uma política que junte no mesmo patamar de interesses a televisão, o patrocinador e os clubes?
Resposta: A priori, não é possível simplesmente evitar que isso aconteça. Não seria possível baixar leis impedindo que tais transações ocorressem. A crise econômica do país, que atinge também os clubes, impede que consigam reter estes atletas.
Se existisse no país uma política governamental de apoio maciço ao esporte, através das escolas e centros culturais nos bairros, haveria condições para o surgimento de milhares de craques, o que reduziria a pressão dos grandes clubes estrangeiros sobre o futebol brasileiro.
8)Não acha que é preciso o governo e a CBF formularem juntos uma política que regulamente e fiscalize a ação dos chamados empresários nas negociações envolvendo jogadores, profissionais e amadores, não só dentro do país mas também para outros centros? Neste caso, o senhor acionaria a Polícia e a Receita Federal?
Resposta: O PCO defende que o atleta seja, de fato, proprietário da sua força de trabalho. E que caiba exclusivamente a ele o direito de vendê-la a um determinado clube. Se o atleta está interessado num clube e vice versa, ambos devem estabelecer um contrato de trabalho nos moldes normais, que garanta os direitos do atleta, sem multas milionárias e sem o controle ou o monopólio pernicioso dos empresários/atravessadores.
9)O RJ perdeu para a Grécia o direito de organizar os Jogos Olímpicos de 2004, mas terá outra oportunidade. A Organização Desportiva Pan-Americana (Odepa) escolherá Sábado, entre as cidades do RJ e San Antônio, no Texas (EUA), qual das duas será sede dos Jogos Pan-Americanos de 2007. O governo federal já se comprometeu a investir US$ 43 milhões no evento. Caso o Rio seja escolhido e o senhor eleito esta quantia será mantida? E há a necessidade de mais investimentos para ajudar na organização do evento?
Resposta: O RJ acaba de ganhar de San Antônio o direito de sediar o Pan de 2007 e isso é bastante interessante para o esporte nacional e como acontecimento cultural para a população, apesar das profundas limitações de tais competições, dominadas pelos grandes capitalistas. A soma prometida pelo governo federal à cidade, caso vencesse a disputa, é irrisória, principalmente se a compararmos com os bilhões que já foram doados aos banqueiros, aos usineiros, aos grandes empresários, aos latifundiários etc. O governo deveria investir na construção de estádios, vilas olímpicas etc, de forma a preparar a cidade, de fato, para o evento. De um lado, tal investimento traria retorno econômico líquido e certo para a cidade (através da movimentação da economia, do turismo etc). Por outro lado, toda a estrutura criada poderia ser utilizada, depois dos jogos, em benefício da população do Rio, como forma de incentivo à prática de esportes, acesso a quadras, piscinas etc. O que não aceitamos é que o dinheiro púbico seja investido no patrocínio de entidades privadas.
10)O que o senhor acha da Medida Provisória 39/02, que transforma os clubes de futebol em empresas e obriga os dirigentes a prestar contas de seus atos?
Resposta: O PCO é contra a transformação dos clubes em empresas, pois isto apenas acentuaria o controle dos cartolas e dos grandes meios de comunicação sobre eles. Como já foi dito, o partido defende que os clubes em dificuldades financeiras sejam estatizados e que o seu controle seja passado à comunidade diretamente envolvida (associados, torcedores etc). Quanto à prestação de contas por parte dos dirigentes, o PCO é amplamente favorável, mas não ao Estado, cabendo aos associados exigirem a divulgação das números e planilhas do clube, ou seja, a abertura de seus livros-caixa.
11)Segundo o Ministério da Previdência, as dívidas dos clubes chegam a R$ 241 milhões. O que fazer para que estas dívidas sejam amortizadas?
Resposta: Como já foi dito, o PCO é contrário a que recursos públicos sejam utilizados para sanear clubes. Em primeiro lugar, a comunidade destes clubes deve ter acesso integral às suas contas, através da abertura dos livros-caixa. Se as dificuldades forem incontornáveis, o PCO defende a estatização destes clubes, passando o seu controle para a comunidade.
12)A MP também autoriza o Ministério Público a fiscalizar a Confederação Brasileira de Futebol (CBF), os clubes e as federações, que deverão publicar constantemente balanços contábeis e realizar auditorias independentes. Isso pode ser considerado legal? Ou o governo não deve se meter nestes assuntos?
Resposta: O governo não deve se meter na vida da CBF ou dos clubes. Quem deve controlá-los são os diretamente interessados: torcedores, associados etc. |