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Site Invadindo - Entrevista
Entrevista Exclusiva de Rui Costa Pimenta (PCO)
para site Invadindo
Invadindo: Qual o principal motivo da sua candidatura à presidência?
Resposta: O PCO defende a mais ampla participação popular nas eleições. Ou seja, defende que os trabalhadores, estudantes, sem-terra, enfim, o conjunto da população explorada dispute o poder, não deixando esse terreno entregue unicamente à burguesia. Nesse sentido, o PCO decidiu lançar não só a minha candidatura, mas várias outras em todo o país (a governadores, deputados, senadores), como forma de difundir a idéia de que os trabalhadores precisam construir um partido próprio, independente da burguesia, e que lute por um governo próprio da classe trabalhadora da cidade e do campo.
Invadindo: Caro candidato Rui Costa, quais são suas principais propostas de governo?
Resposta: O PCO defende um conjunto de propostas de luta, não só para o período eleitoral, mas para o dia-a-dia da luta de classes: nos sindicatos, nas escolas, nas fábricas etc. Defendemos que os trabalhadores devem lutar por suas reivindicações mais prementes, como o salário mínimo de R$ 1.500,00, a reposição de todas as perdas salariais sofridas com o Plano Collor, a redução da jornada de trabalho semanal para 35 horas (como forma de combater o desemprego), uma ampla reforma agrária (com confisco do latifúndio e sob controle dos trabalhadores), o fim das privatizações e a revogação das já realizadas, o não pagamento da dívida externa, o fim dos subsídios aos capitalistas (verbas públicas apenas para os serviços públicos), o fim do vestibular (para dar acesso a todos os que quiserem cursar faculdade), entre outras.
Invadindo: Quais são as suas propostas para reduzir a violência no pais? que está se tornando insustentável.
Resposta: Do ponto de vista preventivo, o PCO entende que a concessão de condições dignas de vida para a população pode conter a espiral da violência e secar a fonte de mão-de-obra barata que traficantes, banqueiros do bicho e outros têm nas favelas e periferia das grandes cidades. Mas o problema da insegurança tem outro aspecto igualmente importante. Trata-se da violência do poder público contra a população, particularmente através da ação da polícia. Em vez de proteger os cidadãos, justiça e polícia transformaram-se em instrumento de repressão contra a população pobre. Neste sentido, o PCO propõe:
Controle democrático dos trabalhadores e da população sobre o judiciário (controle direto das organizações do movimento operário e popular e eleições diretas para juízes e promotores).
Dissolução das polícias militar e civil. Em seu lugar, criação de uma milícia diretamente controlada pela população, em âmbito local e com a participação direta da comunidade, com os seus oficiais eleitos democraticamente pela tropa etc.
Reforma do sistema carcerário. Revisão das penas. Revisão do sistema de penas de reclusão etc.
Invadindo: Como você pretende implantar um salário mínimo de R$1500?
Resposta: Sem dúvida, essa é a proposta do PCO que mais tem chamado a atenção da população. Por isso, pretendo responder mais aprofundadamente. Em primeiro lugar, é preciso deixar claro que este é o valor mínimo necessário para que se cumpra o previsto na lei máxima do país, a Constituição, que preconiza um salário mínimo capaz de garantir as necessidades básicas de um trabalhador com alimentação, moradia, saúde, educação, transporte etc. Mas, até aí, nenhuma novidade. No Brasil, via de regra, leis que favorecem amplos setores da sociedade acabam virando letra morta.
Os principais argumentos contra o mínimo de R$ 1.500,00 são conhecidos: ele geraria inflação, quebraria a Previdência, inviabilizaria as empresas etc etc. Todos estes argumentos são falaciosos e refletem o enorme medo da burguesia em permitir que a classe trabalhadora conheça as engrenagens do capitalismo e o porquê de sua miséria.
A via para que se paguem melhores salários aos trabalhadores - aí incluído o mínimo de R$1.500,00 - é uma sensível diminuição das margens de lucro da classe patronal. Salário e lucro têm uma relação elástica e inversamente proporcional. Isso quer dizer que quanto maior é o salário, menor é o lucro, e vice-versa. Porque ambos os fatores, salário e lucro, são formas diferentes de apropriação de uma única riqueza, que foi criada pelos trabalhadores.
Num primeiro momento, é fato que haveria uma elevação nos preços nos bens de primeira necessidade, justamente porque a população pobre passaria a consumi-los mais. À medida que a oferta for se tornando menor do que a procura, o preço aumentará, segundo a lei de oferta e procura. Mas esta elevação seria apenas temporária, ao contrário do que dizem a burguesia e seus teóricos.
Menos consumidos, os demais setores da economia, como os considerados supérfluos, podem chegar ao colapso. Vendo a lucratividade migrar para a indústria de primeira necessidade, no entanto, a tendência é que os capitalistas que outrora atuavam nos supérfluos façam o mesmo, ou seja, passem a atuar no ramo das primeiras necessidades. Com uma maior concorrência e oferta, os preços destes produtos tendem a voltar ao patamar normal, pré-inflação. O que mudaria seria justamente o salário, que abocanharia mais mercadorias. Quem perderia seria o lucro, que teria de ser diminuído.
Num segundo momento, tenderia a ocorrer um novo rearranjo na economia capitalista, como tem mostrado a história: parte da indústria voltaria para a produção de outros produtos, que não os de primeira necessidade. Isso sem falar que a expansão dos salários provocaria um crescimento econômico em diversos ramos, alargando a base econômica geral.
De um modo geral, se este raciocínios contra o aumento do mínimo fossem corretos, os aumentos salariais seriam impossíveis.
Para os que querem se aprofundar nesta discussão teórica, recomendamos a leitura de clássicos da economia, como Salário, preço e lucro, de Karl Marx, História dos preços, de Thomas Tooke, e Princípios de economia política e tributação, de David Ricardo.
Embora esclarecedor, o melhor ângulo para este debate, porém, não é o teórico, mas sim o social.
Estamos falando da vida de dezenas de milhões de brasileiros, condenados a sobreviver miseravelmente com um dos salários mais baixos do mundo, menor que o de países como o Paraguai, inclusive. Os que mais vociferam contra o mínimo de R$ 1.500,0 não o fazem por alguma preocupação teórica ou técnica, mas para defender os próprios interesses. Os empresários são contrários porque estão preocupados em manter suas altas margens de lucro. O FMI e o imperialismo, por sua vez, exigem o permanente pagamento dos juros e serviços da eterna dívida externa (já na casa dos 230 bilhões de dólares), mesmo que para isso condenem ao genocídio todo um povo. Para os primeiros, a proposta é que reduzam seus ganhos. Quanto à dívida, nenhum centavo a mais para os agiotas internacionais. E que todos os recursos nacionais sejam utilizados em benefício da população brasileira.
Em relação à Previdência, algumas rápidas observações, devido às limitações do espaço. O aumento do salário mínimo não vai quebrá-la, pois ela já está quebrada. É necessário que se faça uma ampla auditoria, sob controle das organizações populares, para se apurar os responsáveis pelos rombos atuais. É público e notório que muitas empresas e mesmo governos estaduais e municipais sonegam suas contribuições. O governo federal, por sua vez, inúmeras vezes desviou recursos previdenciários para outros fins. Cobertos estes rombos, o aumento da arrecadação, decorrente do aumento da contribuição dos próprios trabalhadores, garantirá os recursos para o pagamento de aposentadorias e pensões de, no mínimo, R$ 1.500,00.
Invadindo: Como o senhor pretende mostrar suas propostas de governo, tendo tão pouco tempo no horário eleitoral?
Resposta: O PCO é um partido de poucos recursos. Sobrevive através da contribuição de militantes e simpatizantes e da venda de materiais que produz (jornais, livros, botons, camisetas etc). Ainda assim, todos os recursos do partido são voltados a difundir suas idéias junto aos trabalhadores, estudantes, negros, mulheres etc. Temos vários jornais (o semanário Causa Operária; publicações específicas para as mulheres, os negros e a juventude), suplementos culturais e de marxismo etc. Além disso, atuamos em várias entidades do movimento sindical, popular e estudantil. A melhor e mais produtiva forma de mostrar nossas propostas e atrair as pessoas para defendê-las é através da participação direta dos nossos militantes e simpatizantes no movimento de massas;
Invadindo: O que você acha sobre os debates eleitorais na TV, onde só Lula, Serra, Ciro e Garotinho participam?
Resposta: Absolutamente antidemocráticos, até mesmo do ponto de vista da democracia burguesa. Simplesmente, os grandes meios de comunicação decidem o quê e quem a população irá ouvir durante a campanha.
Invadindo: O PCO é favorável ao acordo com o FMI?
Resposta: De forma alguma. Os acordos com os fundos internacionais asfixiam o país através do pagamento de juros e impõem cortes dramáticos nos serviços públicos. O PCO defende o não pagamento das dívidas interna e externa, por entender que foram feitas para beneficiar os bancos (nacionais e estrangeiros) e os grandes grupos capitalistas brasileiros. Na hora de pagá-las, no entanto, a conta recai sobre aqueles que não usufruem delas: a maioria pobre e explorada da população. Para saldar os serviços de ambas as dívidas (interna e externa), o governo corta de serviços essenciais (como saúde e educação), arrocha salários, gera recessão. Portanto, o PCO defende o cancelamento dessas dívidas e a realização de uma ampla auditoria popular. Além disso, defende a estatização completa do sistema financeiro do país, como forma de acabar com a especulação e a agiotagem sobre o Estado e a população.
Invadindo: Como o senhor avalia o governo de Fernando Henrique Cardoso?
Resposta: O governo FHC mergulhou o país num enorme retrocesso nestes oito anos de Plano Real. Os sinais disso são um desemprego sem precedentes, com mais de 20% da força de trabalho sem ocupação; enorme retrocesso na capacidade produtiva do país, com desmonte de boa parte do seu parque industrial, atendendo aos interesses das multinacionais e do imperialismo; a disseminação da miséria nas grandes metrópoles, com mais de 5 mil favelas e milhões de moradores de rua, além do estarrecedor índice de mais de 30% da população sobrevivendo em condições de pobreza absoluta, auferindo menos de R$ 80,00 mensais. Ao fazer o jogo do FMI, cortando cada vez mais do orçamento nacional para enviar aos banqueiros, o governo agrava a situação.
Invadindo: O senhor nós diria, que sua candidatura é um projeto a longo prazo? Para ganhar daqui 1 ou 2 eleições?
Resposta: Minha candidatura é parte de um projeto revolucionário e socialista, e não apenas parte do processo eleitoral. O PCO trabalha para impulsionar a organização da população, para elevar a sua consciência política e estimulá-la a se organizar num partido próprio, independente dos patrões e do governo.
Invadindo: Falando um pouco de sua vida particular, o senhor foi expulso do PT em 1990, qual o motivo dessa expulsão?
Resposta: Eu e outros companheiros fazíamos parte de uma corrente chamada Causa Operária (de orientação trotskista), que atuava no PT desde a sua fundação. Em 1989, Causa Operária participou da campanha eleitoral denunciando a formação de uma frente entre o PT e a burguesia e chamou a formar comitês eleitorais exclusivamente pelos militantes classistas do PT, independentes da frente popular. Esta denúncia provocou a intervenção da direção do PT e a destituição dos diretórios municipais dirigidos pelo partido que se opunham à aliança coma burguesia, como Bauru (SP) e Volta Redonda (RJ). Nas eleições de 1990, cerca de 20 candidatos do partido a deputado federal e estadual foram cassados pela direção do PT, entre eles os companheiros Pedro Paulo de Abreu Pinheiro, candidato a vice-presidente em 2002, Lurdes Sarmento, candidata a governadora da Paraíba, além de mim mesmo. A partir de 1991, os militantes de Causa Operária foram expulsos do PT em todos os estados, apesar de uma enorme campanha que conseguiu mais de mil declarações de militantes de destaque do partido contra a expulsão.
Invadindo: O senhor é formado em Jornalismo? Cursou qual faculdade?
Resposta: Sim, sou formado em Jornalismo pela Cásper Liberto, de São Paulo.
Invadindo: O que o senhor nós diria sobre sua vida pessoal e seu passado? Pois achamos interessante conhecer um pouco mais sobre a vida dos políticos.
Resposta: Tenho 45 anos, nascido em São Paulo, casado (com Anaí Caproni) e pai de três filhos (Natália, 17 anos; João Jorge, 5 anos; e Carlos Henrique, 7 meses). Além de jornalista, também sou tradutor. Fui professor de inglês de 1978 a 1980. Como jornalista, trabalhei na Assessoria de Imprensa da CUT Estadual São Paulo, de 84 a 86; no mesmo período, fui chefe do departamento de imprensa do Sindicato dos Químicos de São Paulo e diretor da CUT Regional Grande São Paulo (1986). Sou tradutor nas áreas de literatura e política. Já publiquei vários livros, entre eles: O que é o Trotskismo, André Breton e o Surrealismo, Aonde vai a esquerda, O que foi a Revolução Russa de 1917, A Revolução Alemã de 1918 etc.
Meu avô, João Jorge Costa Pimenta, foi um pioneiro do movimento operário brasileiro. Primeiro, como anarco-sindicalista, foi fundador da COB e dirigente da famosa greve geral de 1917, que conquistou a jornada de oito horas. Foi fundador do PCB, em 1922 e, depois, da Liga Comunista, com Mário Pedrosa e outros, seção da IV Internacional fundada por Leon Trotski.
Iniciei minha vida política participando das mobilizações estudantis contra a ditadura militar no final dos anos 70. Sou o atual presidente nacional do PCO e editor responsável pelo jornal Causa Operária.
Invadindo: Quais são os próximos passos de sua campanha? O que o senhor pretende fazer para aumentar o número de votos?
Resposta: Vamos continuar a apresentar nossas propostas em todos os lugares e momentos em que for possível, sem uma preocupação específica com o número de votos.
Invadindo: Se as eleições acabassem hoje, Lula e Serra estariam no segundo turno, em quem o senhor votaria?
Resposta: Logo após o primeiro turno, o PCO vai realizar uma grande conferência nacional para definir seu posicionamento no segundo turno. De qualquer forma, há um sentimento no partido de posicionar-se pelo voto nulo, por entender que nenhuma das alternativas corresponde às necessidades da maioria da população, inclusive o PT, que está aliado a um grande empresário (o vice, José Alencar, é um dos maiores patrões do Brasil), recebe o apoio de figuras da burguesia (Quércia, Sarney, Itamar etc). Mas, como eu disse, quem vai decidir é a conferência.
Invadindo: Qual é o principal motivo, que o senhor acha que os jovens devem votar no PCO?
Resposta: Os jovens devem votar no PCO para abrir caminho para o novo, para o socialismo, para um mundo sem explorados nem exploradores. Infelizmente, o PT não representa essa alternativa, pois sucumbe aos interesses da burguesia e se afasta, cada vez mais, dos anseios dos jovens e da maioria da população.
Invadindo: O que o senhor diria aos usuários do site Invadindo? (em geral jovens, que votam pela primeira vez à presidência esse ano)
Resposta: Votem no PCO. E, mais do que isso, venham construir conosco um novo partido, independente da burguesia, uma verdadeira representação dos jovens, dos trabalhadores, das mulheres, dos negros, dos sem-terra e toda a população explorada e oprimida.
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